BaianaSystem — Duas Cidades
Álbum: Duas Cidades
Uma cidade pode caber numa canção. O difícil é fazer caber suas diferenças: os caminhos de quem trabalha, os espaços de quem festeja, o direito de permanecer e as fronteiras que separam pessoas que vivem perto umas das outras.
Em Duas Cidades, o BaianaSystem transforma essas questões em matéria musical. Lançado em 29 de março de 2016, o segundo álbum do grupo completa dez anos em 2026. Daniel Ganjaman assina a produção das faixas, num trabalho desenvolvido com a banda.
O aniversário oferece uma oportunidade de voltar às músicas com perguntas. Como Salvador aparece nesse repertório? Que relações existem entre a festa e a disputa pela cidade? O que podemos perceber quando acompanhamos as palavras com a mesma atenção dedicada ao ritmo?
“Duas Cidades”, “Lucro (Descomprimindo)” e “Playsom” permitem percorrer esse caminho. Juntas, elas oferecem uma leitura possível do álbum: pertencer, respirar e ocupar.
“Duas Cidades”: pertencer a qual cidade?
A faixa que dá nome ao disco aproxima o cotidiano do trabalho das referências à Cidade Alta e à Cidade Baixa. A letra transforma a divisão de Salvador numa pergunta sobre o lugar de cada pessoa. Nos créditos, o encontro também é coletivo: Russo Passapusso na voz, SekoBass no baixo, Junix na guitarra, programação de Ganjaman, percussões e o coro das Ganhadeiras de Itapuã.
Podemos ler essa geografia como uma pergunta sobre pertencimento. Morar numa cidade significa ter acesso a quais partes dela? Trabalhar, circular e se divertir são experiências compartilhadas em condições semelhantes?
A canção permite deslocar essas perguntas para a nossa própria rotina. O trajeto até o trabalho, o bairro onde um show acontece ou a distância até um espaço de lazer também compõem a maneira como vivemos uma cidade.
Para acompanhar a escuta: observe as referências ao trabalho e aos deslocamentos. Depois, acompanhe a relação entre a voz principal e o coro. Que diferença faz uma pergunta sobre pertencimento ganhar várias vozes?
“Lucro (Descomprimindo)”: o espaço de respirar
Em “Lucro (Descomprimindo)”, construções na praia, especulação imobiliária e petróleo em alto-mar entram diretamente na letra. A composição é creditada a Russo Passapusso e Mintcho Garrammone. A ficha técnica reúne guitarra baiana, baixo, programação, percussão e metais.
O título fornece uma chave para interpretar esse conjunto. Quando o lucro organiza a relação com o território, o que acontece com quem precisa viver nele?
A falta de ar descrita na canção dá uma dimensão corporal ao problema. O debate sobre ocupação urbana passa pela experiência de alguém que sente o espaço se fechar. A praia torna-se um lugar em disputa.
Essa possibilidade de leitura permanece disponível dez anos depois. A música permite pensar nos interesses que definem o espaço compartilhado e nas consequências dessas escolhas para a vida cotidiana.
Para acompanhar a escuta: preste atenção à passagem entre as imagens da paisagem e a experiência de sufocamento. Observe como o título altera o sentido dessas imagens.
“Playsom”: a festa também conta essa história
“Playsom” oferece outro caminho. Sua letra traz o pagodão para o centro da conversa, enquanto os créditos aproximam a guitarra baiana de Roberto Barreto, o baixo sintetizado de SekoBass, a programação de Ganjaman, metais e percussões — incluindo a participação de Márcio Victor.
Essa combinação permite pensar a festa como uma forma de relação com o território. Ritmos carregam experiências, circulam entre pessoas e ajudam a construir reconhecimento. A cidade também existe naquilo que seus habitantes inventam para se encontrar.
Ao lado das duas faixas anteriores, “Playsom” amplia nossa leitura. A vida urbana envolve disputas e dificuldades, mas também criação, prazer e convivência. Ouvir essas dimensões juntas evita reduzir Salvador a uma paisagem ou a um problema.
Para acompanhar a escuta: siga a guitarra baiana e a percussão. Depois, volte às palavras: que ideia de encontro a música convida você a imaginar?
Um disco construído em movimento
Em entrevista concedida a Gil Luiz Mendes, do Scream & Yell, em 2017, Roberto Barreto explicou que Duas Cidades organizou experiências que a banda vinha desenvolvendo em shows e singles. Ganjaman participou dessa passagem para o formato de álbum, enquanto as apresentações continuaram abertas à experimentação.
Esse processo ajuda a situar a obra. As músicas chegaram ao disco depois de uma trajetória de encontros e testes; a gravação estabeleceu uma forma para experiências que continuariam em movimento.
Revisitar Duas Cidades em 2026 pode começar por aí: reconhecer o álbum como um registro e, ao mesmo tempo, como um convite a escutar relações. Entre voz e coro. Entre guitarra e programação. Entre a cidade que aparece nas letras e aquela que cada ouvinte atravessa.
Depois dessas três faixas, vale seguir pelo disco inteiro. A pergunta sobre pertencimento pode acompanhar a escuta e continuar no caminho de volta para casa.

Lucas Coutinho
Jornalista musical e editor da Vitrola Digital
Jornalista musical e editor da Vitrola Digital. Nas redes, assina como LUKE e produz conteúdo sobre música brasileira, artistas, cenas e cultura.


