REPORTAGEM · FESTIVAIS

Do Azymuth a Major RD: o que o Coquetel Molotov 2026 revela sobre a ideia de música independente

Ao reunir artistas de gerações, linguagens e escalas diferentes, a 23ª edição do festival abre uma pergunta sobre como a ideia de música independente mudou no Brasil.

Por Lucas Coutinho·27 DE SETEMBRO DE 2026·Pernambuco·5 min de leitura
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Line-up No Ar Coquetel Molotov

O que ainda significa ser independente na música brasileira?

A pergunta ganha outra dimensão quando se olha para a programação do No Ar Coquetel Molotov em 2026. Na mesma edição, o festival reúne Azymuth, Fernanda Abreu, Cidadão Instigado, Karol Conká e Boogarins ao lado de Major RD, Bia Soull, NandaTsunami, Ciça, O Kannalha e outros nomes de diferentes gerações e circuitos da música brasileira.

A 23ª edição acontece em 28 de novembro, no Campus da Universidade Federal de Pernambuco, no Recife, com mais de 25 atrações distribuídas por três palcos. Na apresentação oficial deste ano, o festival destaca três ideias que atravessam sua trajetória: descoberta de artistas, encontro entre gerações e conexão entre cenas brasileiras e internacionais.

Mais do que uma programação diversa, o cartaz ajuda a observar como a ideia de música independente se tornou mais difícil de encaixar em uma única definição.

Quando independente também significava um circuito

A história do Coquetel Molotov começa antes do festival.

O projeto surgiu em 2001, ajudando a difundir artistas locais pela Rádio Universitária AM, atual Rádio Paulo Freire. Depois vieram zine, revista impressa e shows. O festival nasceu em 2004, no Teatro da UFPE.

Naquele período, a relação do Coquetel com o circuito independente era mais evidente também em termos estéticos. Em entrevista ao Music Non Stop, em 2023, Ana Garcia, uma das criadoras do festival, contou que as primeiras edições tinham forte presença do rock indie e da música experimental.

Segundo Garcia, 2009 representou uma mudança importante: a produção independente brasileira ganhou mais espaço, novos discos e bandas passaram a circular pelo país, e a música brasileira começou a ocupar uma fatia maior da programação do festival.

A história não segue uma linha reta entre aquele momento e 2026.

Mudaram os artistas, as formas de distribuição, os espaços de circulação, as plataformas de descoberta e o próprio tamanho do evento.

O Coquetel também cresceu. O que começou em um teatro passou por diferentes espaços até chegar ao Campus da UFPE, com múltiplos palcos e uma programação que combina artistas locais, nacionais e internacionais.

Um cartaz que atravessa gerações

É nesse contexto que a programação de 2026 chama atenção.

Azymuth tem uma trajetória iniciada décadas antes da criação do festival. Fernanda Abreu ocupa um lugar consolidado na história da música pop brasileira. Cidadão Instigado e Boogarins se relacionam, em momentos diferentes, com circuitos alternativos e independentes de circulação.

Ao lado deles aparecem Major RD, Bia Soull, NandaTsunami, Ciça e O Kannalha, artistas que circulam em um ecossistema musical moldado também por streaming, redes sociais, distribuição digital e uma rede ampliada de festivais.

Essas trajetórias não obedecem ao mesmo modelo de carreira.

É justamente isso que torna o cartaz interessante.

Em outras edições, o próprio Coquetel já se apresentou como referência do circuito independente e como espaço dedicado ao equilíbrio entre artistas consolidados e novidades da cena. Em 2024, ao chegar à 21ª edição, o festival ainda se definia explicitamente a partir da música independente, enquanto ampliava o line-up para gêneros como rock, brega, trap, jazz, funk e coco de roda.

O que aparece em 2026, portanto, não é uma ruptura simples com essa história, mas uma ampliação de suas fronteiras.

Independente deixa de funcionar apenas como marcador de gênero, tamanho de público ou pertencimento a uma cena específica.

Um festival que mudou junto com a cena

A forma como o Coquetel Molotov se apresenta ao longo do tempo também permite acompanhar essa transformação.

Na comemoração de 20 anos, em 2023, o festival reforçava sua relação histórica com a música independente e com a aproximação entre artistas emergentes e nomes já estabelecidos.

No ano seguinte, ao lançar um documentário sobre sua trajetória, passou a organizar essa história de maneira mais ampla. O filme recupera a passagem do rádio aos grandes palcos e relaciona a evolução do evento às transformações da música do Recife nas últimas duas décadas.

O próprio documentário descreve uma mudança importante: o Coquetel deixa de se identificar apenas como palco da música independente e passa a assumir também um papel de fomento cultural, inclusão, acessibilidade e transformação social.

Em 2026, o vocabulário utilizado para apresentar o festival enfatiza conexão. Artistas históricos e contemporâneos, cenas brasileiras e internacionais, música de pista, experimentação e cultura popular aparecem dentro do mesmo programa.

Não é possível concluir, apenas olhando o cartaz, que o festival tenha decidido redefinir o conceito de independência.

É possível perceber, porém, que aquilo que cabe dentro de sua programação se ampliou.

Recife não é apenas o endereço

Existe também uma dimensão territorial fundamental nessa história.

O Coquetel Molotov nasceu no Recife e permaneceu ligado à cidade enquanto aumentava sua escala. O documentário lançado em 2024 relaciona diretamente a trajetória do evento às mudanças da música recifense e ao fortalecimento da cena cultural pernambucana.

Essa permanência ajuda a explicar parte da identidade do festival.

Em entrevista de 2023, Ana Garcia chamou atenção para a dificuldade de manter um evento desse porte em Pernambuco e para o papel dos festivais como pontos de encontro entre artistas, produtores, curadores e público.

O Coquetel funciona, nesse sentido, não apenas como palco, mas como parte de uma rede de circulação.

A própria organização mantém projetos paralelos ligados à formação e ao desenvolvimento de artistas locais, como iniciativas de incubação e capacitação musical em Pernambuco.

Isso torna o território mais do que pano de fundo.

Recife participa da lógica do festival.

Afinal, o que ainda é independente?

Talvez essa seja a pergunta mais interessante deixada pela programação de 2026.

O próprio histórico do Coquetel mostra que música independente nunca significou apenas uma coisa.

Já esteve associada de maneira mais direta ao rock indie e à experimentação. Depois passou a incorporar uma presença maior da música brasileira, novas cenas, diferentes gêneros e artistas com níveis distintos de circulação.

Hoje, um mesmo festival pode colocar no palco artistas veteranos, nomes consolidados da música pop, bandas associadas historicamente a circuitos alternativos e artistas de gerações recentes que se desenvolveram em um ambiente marcado por plataformas digitais e novas formas de distribuição.

Isso não torna todas essas trajetórias equivalentes.

Também não significa que as diferenças entre gravadoras, selos, distribuidoras, artistas autônomos e grandes estruturas tenham desaparecido.

Talvez seja justamente o contrário.

Quanto mais amplo se torna o campo da música independente, mais importante passa a ser perguntar independente de quê, de quem e em qual parte da carreira.

O Coquetel Molotov não responde sozinho a essas perguntas.

Mas sua trajetória oferece uma forma de observá-las.

Entre Azymuth e Major RD existe mais do que uma distância geracional. Existe uma mudança no ecossistema em que a música brasileira é criada, descoberta, distribuída e colocada em circulação.

E talvez seja por isso que, depois de mais de duas décadas, a ideia de independência continue aparecendo no festival: não como uma definição fechada, mas como uma pergunta em permanente transformação.


Lucas Coutinho

Lucas Coutinho

Jornalista musical e editor da Vitrola Digital

Jornalista musical e editor da Vitrola Digital. Nas redes, assina como LUKE e produz conteúdo sobre música brasileira, artistas, cenas e cultura.