VITROLA DIGITAL
ESPECIAL · TERRITÓRIOS

O que é uma aparelhagem? Um caminho para entender o Rock Doido de Gaby Amarantos

Som, DJs e vínculos com o público: conhecer as festas de aparelhagem de Belém abre outro caminho para ouvir o álbum de Gaby Amarantos.

Por Lucas Coutinho·03 DE OUTUBRO DE 2026·4 min de leitura
Compartilhar:
Gaby Amarantos com figurino estampado, com uma mão levantada diante de um fundo vermelho.
Gaby Amarantos, artista que aproxima o álbum Rock Doido da cultura das aparelhagens de Belém.Divulgação

Uma aparelhagem tem equipamentos de som, mas sua história também envolve quem escolhe as músicas, organiza a festa e volta para acompanhar a próxima apresentação. No Pará, compreender esse encontro entre estrutura, repertório e público ajuda a entender uma parte importante da vida musical local.

É desse universo que parte Rock Doido, de Gaby Amarantos. Lançado em agosto de 2025, o projeto reúne um álbum de 22 faixas e um filme. Na apresentação publicada pela gravadora Deck, a cantora associa o trabalho às festas de aparelhagem que fizeram parte de sua formação.

Conhecer esse contexto oferece uma entrada para o disco: em vez de acompanhar apenas as canções isoladas, podemos perguntar como elas se relacionam com uma experiência coletiva de festa.

Crédito: Divulgação

O que é uma aparelhagem?

No circuito paraense, o termo identifica estruturas e organizações que sonorizam festas, com equipamentos, equipes e características próprias. A dimensão física é importante, mas o significado cultural também depende das relações construídas em torno delas.

Na dissertação “É a festa das aparelhagens!”, defendida na Universidade Federal do Pará em 2008, Andrey Faro de Lima descreve empresas que se diferenciam pelo estilo de festa, pelos públicos e pelas dimensões de seus aparatos sonoros. Seu estudo examina relações que ultrapassam o momento do evento.

Isso ajuda a evitar uma definição estreita. Para compreender uma aparelhagem, é necessário olhar tanto para sua estrutura quanto para a maneira como as pessoas a reconhecem, acompanham e frequentam.

Quem conduz a festa

A escolha das músicas é uma parte do trabalho do DJ. A interação com o público também participa da experiência.

Em reportagem publicada em 2020 pelo jornal Beira do Rio, da UFPA, uma pesquisa de Hans Passos destaca a importância do carisma dos DJs e de seus vínculos com os frequentadores. O estudo também identifica diferenças entre festas: em algumas, a identificação com o DJ e a aparelhagem pesa mais; em outras, o repertório ganha maior importância.

A pesquisa descreve ainda o uso de iluminação, telas e efeitos nas apresentações analisadas. Esses elementos participam da construção do espetáculo, junto com o som.

Não existe, portanto, uma experiência única que explique todo o circuito. Públicos, repertórios e modos de conduzir a noite variam.

Uma cultura de encontro

A dimensão social aparece também em uma pesquisa publicada em 2022 na revista LICERE, realizada por Patrícia do Socorro Chaves de Araújo, Anacleto Araújo dos Santos e Eduarda Moura da Silva.

O estudo ouviu 15 DJs do cenário paraense e investigou como eles compreendiam o lazer nas festas. Entre os resultados, os entrevistados apontaram o potencial desses encontros como espaços populares de convivência e inclusão.

Essa conclusão deve ser entendida como a perspectiva dos participantes daquela pesquisa. Ainda assim, ela amplia a pergunta: o que as pessoas procuram quando escolhem uma festa? A resposta pode envolver música, companhia, identificação e pertencimento.

Da festa ao álbum

Gaby Amarantos apresenta Rock Doido como um trabalho ligado às periferias de Belém e às festas que a formaram. Essa ligação aparece também na rede de participantes: a ficha divulgada pela Deck inclui Viviane Batidão, Gang do Eletro, MC Dourado e DJs como Méury, Baby Plus Size e Iran.

Segundo o material de lançamento publicado pela Billboard Brasil, o álbum foi concebido para ser acompanhado de maneira contínua, tomando os sets dos DJs de aparelhagem como referência.

Essa escolha oferece uma proposta de escuta: acompanhar a sequência completa e observar como uma faixa encaminha a próxima. A pergunta deixa de ser apenas qual música se destaca e passa a incluir o que acontece entre elas.

Os próprios títulos ajudam a identificar o universo convocado pelo projeto. “Carregador de Aparelhagem” e “Rock Doido é Meu Lugar” trazem para o repertório o trabalho e a relação com a festa.

O filme acrescenta outra forma de conhecer a proposta. Gravado em Belém e apresentado como uma realização em plano-sequência, ele permite acompanhar como o projeto organiza música e imagem numa trajetória contínua.

Um caminho para ouvir

Conhecer as aparelhagens muda o ponto de partida para Rock Doido. O álbum pode ser abordado como uma elaboração artística de práticas e relações que já possuem história no Pará.

Para acompanhar o projeto, vale começar pela sequência completa do disco e depois assistir ao filme. Observe as passagens entre músicas, os participantes e a maneira como a ideia de festa organiza o conjunto.

Esse percurso não substitui conhecer o circuito por meio de seus frequentadores e profissionais. Oferece uma primeira aproximação: ouvir Gaby com atenção ao mundo musical do qual seu trabalho participa.

Nota da Redação:Este especial foi elaborado com apoio de DJs em na pesquisa documental. As fontes utilizadas estão identificadas ao longo do texto.
Lucas Coutinho

Lucas Coutinho

Jornalista musical e editor da Vitrola Digital

Jornalista musical e editor da Vitrola Digital. Nas redes, assina como LUKE e produz conteúdo sobre música brasileira, artistas, cenas e cultura.

Urias com figurino vermelho, adereço de penas vermelhas na cabeça e faixa verde e amarela, levantando um braço diante de um fundo escuro.
ESPECIAL · COMPORTAMENTO

Que Brasil cabe em Carranca, de Urias?

Em “Deus”, “Herança” e “Voz do Brasil”, Urias reúne referências da música brasileira e perguntas sobre pertencimento. Um guia para revisitar Carranca pela memória, pelo legado e pela disputa sobre quem representa o país.

02 DE OUT. DE 2026