Quem fala quando ouvimos a voz do Brasil? Um programa de rádio, uma campanha de turismo, uma canção? Cada resposta escolhe um pedaço do país e deixa outros fora de quadro. Em Carranca, Urias transforma essa disputa em assunto de música.
Lançado em 7 de outubro de 2025, o terceiro álbum da cantora se aproxima do primeiro aniversário. A data convida a revisitar uma pergunta que atravessa seu projeto: como cantar o Brasil a partir das histórias de quem nem sempre encontra lugar na imagem oficial do país?
Em entrevista ao TOCA, na época do lançamento, Urias explicou que queria voltar a cantar em português depois das experiências de Her Mind. O idioma integra uma mudança mais ampla: o repertório trabalha com referências da música brasileira, colaborações e questões sobre pertencimento.
Três faixas oferecem entradas para essa conversa. Não esgotam o disco, mas ajudam a acompanhar um percurso que passa pelo que foi retirado, pelo que será transmitido e por quem terá o direito de falar.
Deus: a memória de uma perda
Com participação de Criolo, “Deus” retoma uma cantiga registrada por Inezita Barroso, com arranjo de José Prates. Em entrevista à NOIZE, Urias relacionou a escolha do rapper à denúncia de um roubo religioso presente na composição.
Essa explicação desloca o sentido do título. A questão envolve as consequências do apagamento de crenças e a possibilidade de recuperar aquilo que a violência colonial tentou interromper.
Nesse contexto, trazer uma referência do passado para uma gravação contemporânea pode ser entendido como uma disputa pela memória. A canção anterior ganha outra situação de fala, dentro do repertório de uma artista que associa sua criação à busca por liberdade.
Na escuta: acompanhe a relação entre a referência retomada e as intervenções de Urias e Criolo. Que história cada voz ajuda a contar?
Herança: o que passa adiante?
“Herança”, com Giovani Cidreira, leva a discussão para aquilo que permanece. No faixa a faixa divulgado no lançamento e publicado pelo Portal Sintoniza, Urias relaciona a composição ao legado recebido e ao que se deseja deixar para o futuro, incluindo a tensão entre riqueza e violência.
A palavra abre uma pergunta incômoda: quando falamos de patrimônio, estamos falando apenas do que alguém possui ou também de como aquilo foi acumulado?
Dentro desse recorte, a faixa permite pensar memória e responsabilidade juntas. Receber uma história também significa decidir o que fazer com ela — quais valores continuar, quais interromper e quais transformar.
A colaboração com Cidreira alcança outras partes do álbum. À NOIZE, Urias contou que ele participou da composição de oito das 14 faixas. Seu papel ajuda a compreender Carranca como uma construção compartilhada.
Na escuta: observe como a ideia de herança aproxima passado e futuro. O que a canção apresenta como algo a carregar, e o que aparece como uma ruptura necessária?
Voz do Brasil: quem representa o país?
A faixa que encerra o álbum, com Major RD, incorpora uma referência a O Guarani, de Carlos Gomes, associada à abertura do programa A Voz do Brasil. O material oficial de divulgação, publicado pela assessoria twnty three, apresenta a música como uma discussão sobre a imagem do país dentro e fora de suas fronteiras.
Esse encontro oferece o ponto mais direto do nosso percurso. Uma referência ligada à comunicação institucional entra numa canção que questiona representação. O nome “Brasil” continua o mesmo; quem participa de sua definição passa a ser o problema.
A leitura proposta aqui é que a faixa permite confrontar a imagem de um país permanentemente em festa com as condições de quem vive nele. Celebrar uma cultura e examinar suas desigualdades podem fazer parte da mesma conversa.
Na escuta: preste atenção ao encontro entre a referência institucional e as vozes de Urias e Major RD. Que autoridade cada uma delas carrega?
Um país em disputa
De “Deus” a “Voz do Brasil”, passando por “Herança”, o caminho sugerido por essas três faixas aproxima religião, memória e representação. São maneiras diferentes de perguntar quem tem acesso à liberdade e quem pode narrar sua própria história.
Essa é uma possibilidade de voltar a Carranca perto de seu primeiro aniversário: acompanhar como o disco reúne referências conhecidas e as coloca diante de outras perguntas. O Brasil cabe no repertório como uma conversa ainda aberta.

Lucas Coutinho
Jornalista musical e editor da Vitrola Digital
Jornalista musical e editor da Vitrola Digital. Nas redes, assina como LUKE e produz conteúdo sobre música brasileira, artistas, cenas e cultura.





