O reggae produzido no Brasil reúne histórias que passam por diferentes cidades, públicos e maneiras de fazer música. Conhecer esse repertório envolve acompanhar tanto trajetórias que ajudaram a ampliar sua presença no país quanto artistas que encontram nele possibilidades de criação hoje.
Esta seleção propõe dez entradas para essa escuta. Na primeira parte, cinco trajetórias com contribuições para a circulação e a construção do reggae brasileiro. Na segunda, cinco artistas de gerações posteriores, entre trabalhos ligados ao gênero e aproximações com o pop.
A divisão organiza o percurso, mas não estabelece uma fronteira rígida entre passado e presente. Artistas com décadas de carreira continuam criando; nomes do segundo bloco também possuem histórias que ultrapassam seus lançamentos mais recentes. Tampouco se trata de um ranking ou de uma síntese de todas as cenas brasileiras.
Trajetórias que abriram caminhos
1. Gilberto Gil — Vamos Fugir
“Vamos Fugir”, na gravação de Raça Humana, de 1984, oferece uma entrada para o intercâmbio entre músicos brasileiros e jamaicanos. Segundo o acervo do Instituto Gilberto Gil, a canção foi trabalhada no estúdio Tuff Gong, na Jamaica, com participação dos Wailers.
Composta por Gil e Liminha, a música passou por etapas em diferentes países até chegar à versão conhecida em português. Sua presença nesta seleção permite acompanhar uma colaboração concreta: o reggae entra no repertório brasileiro também pelas relações entre compositores, instrumentistas e produtores.
Versão selecionada: gravação do álbum Raça Humana.
2. Edson Gomes — Camelô
Em “Camelô”, o trabalho ocupa o centro da canção. A faixa integra Apocalipse, álbum de 1999, e abre um caminho para pensar como o reggae pode narrar a sobrevivência cotidiana.
O repertório de Edson Gomes ajuda a ampliar o assunto da playlist para além do encontro amoroso e da festa. Aqui, a atenção se volta para quem trabalha, enfrenta obstáculos e procura sustentar a própria vida. A escolha da faixa parte desse recorte social.
Versão selecionada: gravação do álbum Apocalipse.
3. Tribo de Jah — Regueiros Guerreiros
“Regueiros Guerreiros” dá nome ao primeiro LP da Tribo de Jah, lançado em 1992. A música aproxima o percurso dos sujeitos e da vida cotidiana que fazem parte da cultura regueira maranhense.
Sua inclusão também pede uma mudança de perspectiva: ouvir reggae no Maranhão significa conhecer uma relação cultural que envolve públicos, espaços de encontro e identificação com a música. A canção oferece uma entrada para esse universo, que merece ser acompanhado também pelas histórias de seus participantes.
Versão selecionada: gravação do álbum Regueiros Guerreiros.
4. Célia Sampaio — Mulher Negra
A trajetória de Célia Sampaio começou nos anos 1980, no Bloco Afro Akomabu, em São Luís. Seu trabalho permite aproximar o reggae de uma história mais ampla de criação e organização cultural negra no Maranhão.
“Mulher Negra”, disponível no álbum Diferente, entra na seleção pelo repertório próprio da cantora. Conhecer Célia exige ouvir suas canções, além de reconhecer sua importância histórica: a presença de uma artista numa cena se constrói também pelo que ela compõe e interpreta.
Versão selecionada: gravação disponível no álbum Diferente.
5. Cidade Negra — A Estrada
“A Estrada” integra Quanto Mais Curtido Melhor, de 1998. Sua inclusão apresenta uma das formas pelas quais o reggae alcançou públicos amplos no Brasil, em diálogo com a canção popular e com o repertório amoroso.
No percurso desta playlist, a faixa funciona como uma passagem entre a trajetória individual e a experiência compartilhada de ouvir. O caminho narrado pela letra oferece um assunto para acompanhar com atenção: o que muda quando uma história pessoal se transforma em canção cantada por muitas pessoas?
Versão selecionada: gravação do álbum Quanto Mais Curtido Melhor.
O reggae no presente
6. Núbia — Andamento
Núbia, de São Luís, apresenta “Andamento” como parte de um trabalho que aproxima reggae roots e dub. A faixa integra Sabores, seu primeiro álbum de estúdio, lançado em 2024.
A escolha permite voltar ao Maranhão por uma produção de outra geração. O território permanece, mas a experiência artística é própria: conhecer Núbia envolve acompanhar suas composições e escolhas, sem exigir que ela represente sozinha toda a música de sua cidade.
Versão selecionada: gravação do álbum Sabores.
7. Marina Peralta — Agradece
“Agradece” dá nome ao primeiro álbum de Marina Peralta, lançado em 2016. Na apresentação desse trabalho, a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul destacou influências de reggae, dub, MPB e rap.
A cantora entra neste bloco como uma artista de geração posterior às trajetórias da primeira parte, com um percurso já desenvolvido. A faixa permite investigar o encontro entre essas referências e um repertório autoral que toma o agradecimento e o recomeço como assuntos.
Versão selecionada: gravação do álbum Agradece.
8. Dada Yute — Samurai
No projeto Jah-Van, lançado em 2018, Dada Yute interpreta “Samurai”, composição de Djavan. O álbum reúne releituras de seu repertório em reggae, com diferentes convidados.
Esta escolha acrescenta uma questão à curadoria: o que acontece quando uma canção conhecida passa por outro tratamento musical? A escuta pode ser acompanhada da gravação de Djavan, observando como cada interpretação organiza a mesma composição.
Versão selecionada: gravação do projeto Jah-Van.
9. Laylah Arruda — Free
Laylah Arruda apresenta “Free” como o single que iniciou o lançamento de Tanto. Sua trajetória está ligada à cultura sound system, incluindo sua atuação como cofundadora do Quilombo Hi-Fi.
A faixa amplia a seleção para um circuito em que gravações, apresentações e sistemas de som participam de uma mesma experiência musical. Conhecer esse contexto ajuda a situar seu trabalho entre práticas coletivas e criação autoral.
Versão selecionada: gravação de “Free” apresentada no lançamento de Tanto.
10. IZA — Caos e Sal
Lançada em 2025 ao lado de “Tão Bonito”, “Caos e Sal” faz parte de uma aproximação explicitamente anunciada por IZA com o reggae. Em declaração publicada pela Billboard Brasil, a cantora afirmou que desejava explorar o gênero.
Sua presença encerra a seleção pelo encontro com o pop. IZA participa desse percurso por uma escolha específica de repertório, que pode ser examinada sem atribuir à artista a tarefa de representar toda a cena reggae.
Versão selecionada: single de 2025.
Uma seleção para continuar ouvindo
Essas dez escolhas oferecem um percurso possível. Há contribuições históricas, repertórios autorais, releituras e colaborações; há também diferentes relações entre artistas e o reggae.
A escuta pode continuar por outras faixas dos mesmos trabalhos. Voltar aos álbuns ajuda a perceber o lugar de cada canção no repertório de quem a gravou e a encontrar caminhos que uma seleção de dez músicas apenas começa a apresentar.

Lucas Coutinho
Jornalista musical e editor da Vitrola Digital
Jornalista musical e editor da Vitrola Digital. Nas redes, assina como LUKE e produz conteúdo sobre música brasileira, artistas, cenas e cultura.





